quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Oficinas de Filosofia em abrigos de Nova Friburgo

Estivemos ontem em Nova Friburgo. Foi uma experiência importante, forte, alegre. Participamos doze pessoas de NEFI (proped/uerj). Tinha aluno de graduação, mestrando, doutorando, pós-doutorando, professor... chegamos em Nova Friburgo e as atividades planejadas, por diversas razões, não puderam
ser realizadas. Também por isso não dormimos como pensávamos, porque está difícil organizar as atividades. O subsecretário de educação, prof. Larry, ajudou muito para que pudéssemos organizar três atividades/oficinas de filosofia em três escolas abrigos diferentes, com crianças e adultos.

Participei de uma muito legal (da qual envio algumas fotos) no bairro de Catarcione com umas quinze crianças. De início as crianças estavam reticentes e acabaram participando inteiramente. Elas tinham entre 2 e 14 anos mais ou menos. Algumas falaram que era a primeira vez que trabalhavam com massinha. 

Uma delas, Carlos Eduardo, perto do final da oficina, que durou quase duas horas, disse que o pensamento está dentro de nossa cabeça e Lucas respondeu que é o futuro que está dentro de nossa cabeça...  Nas outras oficinas participaram adultos, mas a presença de adultos durante a semana está mais limitada por que saem para buscar casa, trabalho, etc. De qualquer forma, os depoimentos da tragédia foram impactantes...

Em Nova Friburgo, nos abrigos, há muitas doações, demais, encaixotadas, em muita quantidade, sem muitas condições e organização para mexer com elas. De fato, trouxemos de volta as doações de roupa que levamos por que não tinham com recebê-las. Alguns abrigos funcionam relativamente bem, num inclusive eles têm um blog!, em outros ouvimos queixas de maus tratos... Parece que roupa e comida não faltam nos abrigos. Mas o que mais escutamos é a necessidade de falar e ser escutados... Monitorem a situação porque muda constantemente. Todos os dias cai o número de pessoas nos abrigos ou elas estão sendo remanejadas pelo começo das aulas. Parece que, pelo menos em Friburgo, é mais fácil organizar atividades em final de semana. O comércio está relativamente bastante aberto. Tinham-nos dito que precisaríamos usar máscaras e sapatos fechados, mas pareceu-nos exagerado, não foi necessário.  

Enfim, podemos conversar sobre o que desejem.
Abraço, Walter Kohon

Fui, brinquei, pintei...e voltarei!

Olá,
O abrigo 19 tinha umas 7 crianças brincando conosco. E no abrigo 29, que
fomos na parte da tarde, tinha umas 5 crianças. Todos gostaram muito de
brincar com tinta e não queriam parar! Deixamos material para eles
continuarem. Eles ficaram realmente muito felizes com aquele momento de
pintura e interação conosco.


Conhecemos um artista! Desenha muito! Tem uns 7 anos. Tinha também um que
gostava muito de ficar sentado no nosso colo ouvindo estórias. Tinha uma outra que falou que não ia deixar a gente ir embora, e outra que era muito levada da breca! Cada criança foi uma delícia poder estar junto um pouquinho. E de fato é trabalho muito necessário. São muitos abrigos e muitos voluntários que precisamos.
Domingo estarei lá outra vez.

Bjs,

Michelle Bandeira

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Relatos Brincantes


No dia 28/01 (sexta-feira) um grupo de 39 pessoas do AIACOM, em adesão à campanha “suba a serra brincando” visitou 03 abrigos em Teresópolis. Seguindo os rumos da mobilização da campanha, tinha-se a expectativa de articular/organizar atividades brincantes com crianças e adolescentes, na perspectiva de humanizar a trágica situação em que se encontram. Diante a gravidade da situação, tecemos alguns combinados que consideramos ser importantes nesse momento. Combinamos de oferecer nosso afeto e cuidado, de provocar sorrisos e alegrias, de manter o bom humor (mesmo diante do inusitado e adverso), enfim, de vivenciar na companhia das crianças e jovens momentos de descontração e contentamento. Em contraponto, combinamos também que tentaríamos manter um comportamento acolhedor, porém, cuidadoso e pouco invasivo. Evitamos saturar as pessoas com perguntas acerca de seus dramas e tragédias, afinal não se trata de um espetáculo. Oferecer a escuta e atenção para quem, espontaneamente, sinalizasse esse desejo. Combinamos que estaríamos atentos para não estressar/incomodar as pessoas que estão na coordenação ou as que atuam como voluntários diariamente, mesmo diante as situações que pudessem nos parecer equivocada ou injusta.

1.    Abrigo - Projeto Vida Nova

Crianças e jovens em idades variadas e mistas, que de início, se mostravam dispersar e desconfiadas. Como estratégia de aproximação as educadoras convidaram para uma roda e começaram a encher balões. Pronto: o suficiente para agregar todas as idades e energias. Rapidamente a energia e o colorido dos balões tomaram conta da cena, fazendo fluir muitas brincadeiras divertidas. Nesse abrigo a marca maior foi o contato físico. As meninas (eram em maior número) sentavam no colo, abraçavam e eram abraçadas enquanto brincavam com miçangas, bolas, giz de cera e dobraduras, completamente entregues e absortas às atividades, recostando a cabeça no colo ou no ombro das educadoras, como se as conhecessem há muito tempo. Lá conseguimos realizar a fluoretação dentária em todo mundo (adultos e crianças). Os meninos e rapazes se envolveram muito rapidamente nas atividades de pipa e pára-quedas. Quando partíamos uma menina (talvez 07/08 anos) correu atrás do carro para saber se a gente voltaria e outra criança bem pequena seguiu conosco e sua mãe até o posto de saúde. Sentia muitas dores no ouvido e quase não participou de nada.

2. Abrigo - Igreja Metodista Central

A coordenação responsável foi bastante receptiva e acolhedora com a nossa visita. Disponibilizando o espaço, porém diziam ter dificuldades em agregar as crianças, alegando que elas eram dispersas e agitadas. Diante o inusitado, o grupo começou a desenvolver atividades individualmente com as crianças. Alguns brincantes diziam / pensavam: “Seriam crianças de rua?” meninos de rua, de lua, aluados, bolados, numerados, calados, paridos, partidos, desterritorializados, afobados, assustados, inquietos e até desafiadores, mas que não resistem a uma boa história. Nesse abrigo, a estratégia que surtiu efeito foi a contação de Histórias. Começaram a contar histórias para um grupo pequeno e logo em seguida foram aproximando outras crianças. Para um mesmo menino foram contadas 08 histórias, até que ele pudesse revelar (o que talvez pudesse parecer óbvio, mas não aos olhos de quem escolhe educar como profissão), não sabia ler! Podemos ler as imagens, sabia? Disse-lhes a brincante. Por fim foram realizadas brincadeiras que envolviam a atenção de todo o grupo, inclusive a do motorista, que passou boa parte de tempo jogando bola com os meninos. A coordenação demonstrou ares de espanto, dizendo que elas nem imaginavam que “aquelas crianças” pudessem fazer algo no coletivo de forma tão coordenada.

3. Galpão de Bebidas Comari

De todos os espaços visitados, esse parece ter sido o mais difícil. A coordenação não oferece boa recepção a quem chega visitando. Lá os voluntários (funcionários da prefeitura?) demonstram, para além da animosidade, uma certa irritação com a iniciativa de “bagunçar” o espaço, humanizando-o com brincadeiras e afetos. Falando em espaço... cabe externar que neste abrigo (detentor de uma cartografia assombrosa) as pessoas são referenciadas pelos números que marcam e dispõem seus colchões/cama.  Como não tivemos muita colaboração na organização e no convite feito às crianças, essas utilizaram como estratégia para as brincadeiras a musicalização. Ligamos o aparelho de som (que havíamos levado) e a partir daí, fomos propondo as atividades. Alguns meninos (que eram em predominância) eram muito gaiatos e tentavam o tempo inteiro desestabilizar o desestabilizado (Isto é: um abrigo enorme com pessoas e camas espalhadas para todos os lados e uma enorme confluência de desejos atravessados – educadores, crianças, adultos, coordenadores, voluntários). Por fim, a química rolou, permeada por desafios, provocações e muitos sorrisos.

Cleidy Nicodemos